CINCO SESSÕES: CHANTAL AKERMAN em UMA BATATA ASSANDO NA AGONIA ROTINEIRA
UMA BATATA ASSANDO NA AGONIA
ROTINEIRA
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| imagem de divulgação |
TÍTULO: JEANNE DIELMAN, 23, QUAI
DU COMMERCE, 1080, BRUXELLAS
PAÍS: BÉLGICA
DIREÇÃO: CHANTAL AKERMAN
ELENCO: DELPHINE SEYRIG, JAN
DECORTE, HENRI STORCK
EXIBIÇÃO: FILMICCA
Falaremos aqui de um filme que
não é necessariamente um entretenimento, é uma obra introspectiva e, no
entanto, com profundo valor no nicho cinematográfico.
Não é ao acaso que “Jeanne
Dielman” está em primeiro lugar na lista de melhor filme de todos os tempos
pela revista britânica Sight and Sound. É a primeira vez também que o topo da
lista é ocupado por uma diretora, Chantal Akerman. Falecida em 2015.
Três dias na vida de uma mulher, interpretada
por Delphine Seyrig, que já havia trabalhado com Alain Resnais, Luis Buñuel e
Marguerite Duras, quando no alto dos seus quarenta e dois anos de vida foi
procurada por uma jovem cineasta com apenas 24 anos e meia dúzia de
documentários ainda não relevantes.
O filme nasce da atmosfera do
cinema experimental nova-iorquino de John Cage e o vanguardismo de Jonas Mekas
no som e na imagem e Trisha Brown no movimento do corpo. Mas também traz o
aprofundamento da temática dos ambientes claustrofóbicos em que a mulher é
enclausurada por uma cultura machista já explorado pela diretoria desde o seu
primeiro trabalho, o curta Exploda minha cidade em que a própria diretora atua
em uma cozinha com afazeres e movimentos até o desfecho trágico. Segue-se em O
quarto, documentário da sua vida em Nova York e Hotel Monterrey, em que somos
convidados a visitar um lugar comum/incomum.
Filmes posteriores de Chantal
Akerman trazem ecos de “Jeanne Dielman” sentidos em A mudança e A prisioneira.
Gestos que passariam despercebidos
em filmes padronizados ganham existências cinematográfica através da câmera
dirigida por Chantal Arkeman. Descascar batatas, banhar-se, arrumar a cama,
colocar a mesa, tomar sopa com o filho podem ser simples gestos que em si que
não influenciariam na trama da maioria dos filmes. Mas quando isto sangra pouco
a pouco por dentro e vai se tornando amargura de uma viúva, que nunca viajou
pelas searas dos prazeres carnais, mesmo se prostituindo ocasionalmente para se
sustentar, lágrimas se traduzem em gestos e andares ao cumprir sua rotina
metodicamente.
Considerado o primeiro filme
claramente feminista, rodado com uma equipe composta apenas por mulheres,
trazendo na fotografia Babette Mangolte e planos longos com câmera fixa no
cenário geometricamente explorado. O tempo dilatado dos compactos três dias não
se enquadram necessariamente em três atos, mas numa decomposição da vida de
Jeanne Dielman que vai acontecendo a partir das pequenas falhas como a batata
que queima, do não encontrar um substituto para o botão perdido e outros
dissabores aparentemente insignificantes.
O assassinato surge no fim do
filme como uma tentativa de retomar o controle perdido a partir do descuido do
dia anterior que levou à queima das batatas. E uma conversa indesejável com seu
filho sobre sexualidade.
Depois de 3h22 de filme, você
fica pensando como o corpo não se prende a uma rotina com emoções reprimida que
força trincas na segurança pessoal.
Uma outra leitura possível é que
que Jeanne Dielman já tinha esta rotina metódica, uma vez que ela conta para o
filho sobre seu casamento em uma tentativa de quebrar o padrão comum para sua
época, em que as mulheres bonitas podiam casar com homens afortunados, e assim
terem uma vida melhor. Mas para fugir do padrão resolveu casar-se com um
comerciante que havia se empobrecido. A rotina a mantinha convicta da sua
escolha.
Ao perder o marido, ela segue sua
rotina e a prostituição era para preencher o vazio deixado pela viuvez. Transferia
para seus clientes o papel do seu marido já que a função de “servir” um homem
era a mesma.
No fim do segundo dia, em uma
conversa sobre sexualidade com seu filho adolescente, este relata para ela uma conversa
que teve com seu pai, revelando o que o marido dela achava sobre as mulheres. Também
isto pode ter levado a Jeanne Dielman a cometer o assassinato do seu cliente no
dia seguinte. Era o fim da segurança de ter feito a escolha certa.
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