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sábado, 3 de janeiro de 2026

CINCO SESSÕES: CHANTAL AKERMAN em UMA BATATA ASSANDO NA AGONIA ROTINEIRA

 
UMA BATATA ASSANDO NA AGONIA ROTINEIRA
 
imagem de divulgação

 
TÍTULO: JEANNE DIELMAN, 23, QUAI DU COMMERCE, 1080, BRUXELLAS
PAÍS: BÉLGICA
DIREÇÃO: CHANTAL AKERMAN
ELENCO: DELPHINE SEYRIG, JAN DECORTE, HENRI STORCK
EXIBIÇÃO: FILMICCA
 
Falaremos aqui de um filme que não é necessariamente um entretenimento, é uma obra introspectiva e, no entanto, com profundo valor no nicho cinematográfico.
 
Não é ao acaso que “Jeanne Dielman” está em primeiro lugar na lista de melhor filme de todos os tempos pela revista britânica Sight and Sound. É a primeira vez também que o topo da lista é ocupado por uma diretora, Chantal Akerman. Falecida em 2015.
 
Três dias na vida de uma mulher, interpretada por Delphine Seyrig, que já havia trabalhado com Alain Resnais, Luis Buñuel e Marguerite Duras, quando no alto dos seus quarenta e dois anos de vida foi procurada por uma jovem cineasta com apenas 24 anos e meia dúzia de documentários ainda não relevantes.
 
O filme nasce da atmosfera do cinema experimental nova-iorquino de John Cage e o vanguardismo de Jonas Mekas no som e na imagem e Trisha Brown no movimento do corpo. Mas também traz o aprofundamento da temática dos ambientes claustrofóbicos em que a mulher é enclausurada por uma cultura machista já explorado pela diretoria desde o seu primeiro trabalho, o curta Exploda minha cidade em que a própria diretora atua em uma cozinha com afazeres e movimentos até o desfecho trágico. Segue-se em O quarto, documentário da sua vida em Nova York e Hotel Monterrey, em que somos convidados a visitar um lugar comum/incomum.
 
Filmes posteriores de Chantal Akerman trazem ecos de “Jeanne Dielman” sentidos em A mudança e A prisioneira.
 
Gestos que passariam despercebidos em filmes padronizados ganham existências cinematográfica através da câmera dirigida por Chantal Arkeman. Descascar batatas, banhar-se, arrumar a cama, colocar a mesa, tomar sopa com o filho podem ser simples gestos que em si que não influenciariam na trama da maioria dos filmes. Mas quando isto sangra pouco a pouco por dentro e vai se tornando amargura de uma viúva, que nunca viajou pelas searas dos prazeres carnais, mesmo se prostituindo ocasionalmente para se sustentar, lágrimas se traduzem em gestos e andares ao cumprir sua rotina metodicamente.
 
Considerado o primeiro filme claramente feminista, rodado com uma equipe composta apenas por mulheres, trazendo na fotografia Babette Mangolte e planos longos com câmera fixa no cenário geometricamente explorado. O tempo dilatado dos compactos três dias não se enquadram necessariamente em três atos, mas numa decomposição da vida de Jeanne Dielman que vai acontecendo a partir das pequenas falhas como a batata que queima, do não encontrar um substituto para o botão perdido e outros dissabores aparentemente insignificantes.
 
O assassinato surge no fim do filme como uma tentativa de retomar o controle perdido a partir do descuido do dia anterior que levou à queima das batatas. E uma conversa indesejável com seu filho sobre sexualidade.
 
Depois de 3h22 de filme, você fica pensando como o corpo não se prende a uma rotina com emoções reprimida que força trincas na segurança pessoal.
 
Uma outra leitura possível é que que Jeanne Dielman já tinha esta rotina metódica, uma vez que ela conta para o filho sobre seu casamento em uma tentativa de quebrar o padrão comum para sua época, em que as mulheres bonitas podiam casar com homens afortunados, e assim terem uma vida melhor. Mas para fugir do padrão resolveu casar-se com um comerciante que havia se empobrecido. A rotina a mantinha convicta da sua escolha.
 
Ao perder o marido, ela segue sua rotina e a prostituição era para preencher o vazio deixado pela viuvez. Transferia para seus clientes o papel do seu marido já que a função de “servir” um homem era a mesma.
 
No fim do segundo dia, em uma conversa sobre sexualidade com seu filho adolescente, este relata para ela uma conversa que teve com seu pai, revelando o que o marido dela achava sobre as mulheres. Também isto pode ter levado a Jeanne Dielman a cometer o assassinato do seu cliente no dia seguinte. Era o fim da segurança de ter feito a escolha certa.

sábado, 30 de agosto de 2025

CINCO SESSÕES: SOLARIS de ANDREI TARKOVSKI

 A CONVIDADA QUE SE DESCONVIDA

FILME: SOLARIS
SÉRIE: CINCO SESSÕES
DIREÇÃO: ANDREI TARKOVSKY (URSS)
ROTEIRO: ANDRE TARKOVSKY/FRIDRIKH GORENSHTEIN.
GÊNERO: FANTASIA/ FICÇÃO CIENTÍFICA.
ELENCO: NATALYA BONDARCHUK, DONATAS BANIONIS, ANTALOLIY SOLONITSYN.
BASEADO NO ROMANCE HOMÔNIMO de STANISLAW LEM (POLÔNIA).
EXIBIÇÃO: SESC PLAY


FONTE: BLOGS DA UTOPIA


 
“O sofrimento faz a vida parecer sombria e perigosa”
 
Ao chegar na estação espacial Solaris, o famoso psiquiatra depara com a situação dos três membros restantes da tripulação sobre o oceano senciente que cobre o planeta de mesmo nome, descrito por Henri Berton, mas que o conselho cientifico governamental não deu crédito para os relatos do piloto, mesmo com a palavra de que algo estaria acontecendo e que merecesse ser analisado dada por um físico ilustre.
 
A tripulação estava desnorteada, incluindo um, Dr Gibarian que havia suicidado, Dr, Snaut estava alucinado enquanto Dr. Sartorius se prendia na obstinação de encontrar a fórmula para a eternidade.
 
O filme em certos momentos esbarra no terror psicológico misturado com horror cósmico. Mas é na verdade a tentativa, bem suscedida, de Andrei Tarkovski colocar sentimentos humanos acima da exposição tecnológica que caracterizava os filmes de ficção científica até então. Mas não é um filme anti-2001: Uma odisseia no espaço de 1968, dirigido por Stanley Kubrick. A não ser uma resposta no campo geopolítico no contexto da guerra fria.
 
Solaris apresenta elementos característico do estilo de Tarkovski. O uso da luz natural e enquadramentos que nos coloca como espectadores de lucidez e flertes com a loucura. As imagens do passado em preto e branco com a atualidade em que o enredo se situa em cores nos faz pensar em como o próprio cinema evoluiu cientificamente. A evolução da tecnologia das câmeras está para o cinema assim com a microscopia está para a citologia.
 
O lago no bucólico sítio do pai de Kris Kelvin passa a fazer sentido ao nos conectar com o oceano de Solaris.
 
No retorno para a cidade feita por Henri Berton na dúvida se convenceu ou não Kris Kelvin, o carro que o conduz passa por longos túneis e breves espaços iluminados, revelando a maestria do diretor e sua equipe fotografia do filme. É um tempo longo que poderia nos ter poupado alguns minutos, mas teria nos privados de um exemplo de como fazer cinema com arte e não mero entretenimento.
 
A sonoplastia não chega a ser destaque, mas se faz presente no tom certo e nos planos certos. E apesar de planos longos, mas inteligentes como já mencionado no retorno de Henri Berton para a urbe, as camadas que podemos explorar ao longo do filme compensa.
 
Chama atenção no filme a atuação de Natalja Sergejewna Bondartschuk, sobre no papel de “convidada”, como era chamado por Dr. Sartorius, as pessoas materializadas a partir dos neutrinos vindo do oceano do planeta pesquisado. A atriz consegue passar muito bem a falta de sentimento em Hari “ressuscitada” que vai entendendo os sentimentos humanos ao conviver com seu marido do passado. Ela traz em seu braço o sinal na pele onde a Hari, em vida, injetou a substância que usou para suicidar. Hari também não se reconhece, sobretudo, quando se vê no espelho. E por mais que Kelvin queira acreditar, Hari tenta convencê-lo que ela não é a sua esposa, é outra coisa.
 
Então Hari, diante da insensatez dos humanos ali, e mesmo sem sentimentos, vê que sua materialização traz sofrimento de Kris Kelvin, seu esposo do passado, que o mergulha cada vez mais no lagamar da insanidade. A personagem se “desconvida” da materialização. E a consciência que os cientistas na Estação Espacial acreditam existir, e que provavelmente digeriu no passado o astronauta Fechner, passou a entender o ser humano a partir de encefalogramas enviados em forma de raio para a sensciência envolvente do planeta-objeto da curiosidade humana.
 
Os pontos de interrogação gravados no final do filme são as digitais nítidas do diretor. O filme tem um propósito filosófico, como toda obra de Tarkovski. Ele não pronuncia verbalmente nos diálogos bem construídos, mas nos faz sentir que a ciência não responde por tudo. Em vez de nos maravilharmos com a corrida espacial, somos conduzidos a questionar o sentido da vida na ficção cientifica do diretor russo.
 
E o sugestivo e poético final, em que uma ilha emerge do oceano de Solaris, como materialização do bucólico sítio do pai de Kris Kelvin, deixa em aberto de o psiquiatra que tinha que produzir um relatório sobre o destino da missão, se voltou para casa ou se decidiu se feliz na estreita faixa de terra que a consciência de Solaris lhe deu a partir dos seus neutrinos.

OBRIGADO PELA LEITURA!!!

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