sábado, 30 de agosto de 2025

CINCO SESSÕES: SOLARIS de ANDREI TARKOVSKI

 A CONVIDADA QUE SE DESCONVIDA

FILME: SOLARIS
SÉRIE: CINCO SESSÕES
DIREÇÃO: ANDREI TARKOVSKY (URSS)
ROTEIRO: ANDRE TARKOVSKY/FRIDRIKH GORENSHTEIN.
GÊNERO: FANTASIA/ FICÇÃO CIENTÍFICA.
ELENCO: NATALYA BONDARCHUK, DONATAS BANIONIS, ANTALOLIY SOLONITSYN.
BASEADO NO ROMANCE HOMÔNIMO de STANISLAW LEM (POLÔNIA).
EXIBIÇÃO: SESC PLAY


FONTE: BLOGS DA UTOPIA


 
“O sofrimento faz a vida parecer sombria e perigosa”
 
Ao chegar na estação espacial Solaris, o famoso psiquiatra depara com a situação dos três membros restantes da tripulação sobre o oceano senciente que cobre o planeta de mesmo nome, descrito por Henri Berton, mas que o conselho cientifico governamental não deu crédito para os relatos do piloto, mesmo com a palavra de que algo estaria acontecendo e que merecesse ser analisado dada por um físico ilustre.
 
A tripulação estava desnorteada, incluindo um, Dr Gibarian que havia suicidado, Dr, Snaut estava alucinado enquanto Dr. Sartorius se prendia na obstinação de encontrar a fórmula para a eternidade.
 
O filme em certos momentos esbarra no terror psicológico misturado com horror cósmico. Mas é na verdade a tentativa, bem suscedida, de Andrei Tarkovski colocar sentimentos humanos acima da exposição tecnológica que caracterizava os filmes de ficção científica até então. Mas não é um filme anti-2001: Uma odisseia no espaço de 1968, dirigido por Stanley Kubrick. A não ser uma resposta no campo geopolítico no contexto da guerra fria.
 
Solaris apresenta elementos característico do estilo de Tarkovski. O uso da luz natural e enquadramentos que nos coloca como espectadores de lucidez e flertes com a loucura. As imagens do passado em preto e branco com a atualidade em que o enredo se situa em cores nos faz pensar em como o próprio cinema evoluiu cientificamente. A evolução da tecnologia das câmeras está para o cinema assim com a microscopia está para a citologia.
 
O lago no bucólico sítio do pai de Kris Kelvin passa a fazer sentido ao nos conectar com o oceano de Solaris.
 
No retorno para a cidade feita por Henri Berton na dúvida se convenceu ou não Kris Kelvin, o carro que o conduz passa por longos túneis e breves espaços iluminados, revelando a maestria do diretor e sua equipe fotografia do filme. É um tempo longo que poderia nos ter poupado alguns minutos, mas teria nos privados de um exemplo de como fazer cinema com arte e não mero entretenimento.
 
A sonoplastia não chega a ser destaque, mas se faz presente no tom certo e nos planos certos. E apesar de planos longos, mas inteligentes como já mencionado no retorno de Henri Berton para a urbe, as camadas que podemos explorar ao longo do filme compensa.
 
Chama atenção no filme a atuação de Natalja Sergejewna Bondartschuk, sobre no papel de “convidada”, como era chamado por Dr. Sartorius, as pessoas materializadas a partir dos neutrinos vindo do oceano do planeta pesquisado. A atriz consegue passar muito bem a falta de sentimento em Hari “ressuscitada” que vai entendendo os sentimentos humanos ao conviver com seu marido do passado. Ela traz em seu braço o sinal na pele onde a Hari, em vida, injetou a substância que usou para suicidar. Hari também não se reconhece, sobretudo, quando se vê no espelho. E por mais que Kelvin queira acreditar, Hari tenta convencê-lo que ela não é a sua esposa, é outra coisa.
 
Então Hari, diante da insensatez dos humanos ali, e mesmo sem sentimentos, vê que sua materialização traz sofrimento de Kris Kelvin, seu esposo do passado, que o mergulha cada vez mais no lagamar da insanidade. A personagem se “desconvida” da materialização. E a consciência que os cientistas na Estação Espacial acreditam existir, e que provavelmente digeriu no passado o astronauta Fechner, passou a entender o ser humano a partir de encefalogramas enviados em forma de raio para a sensciência envolvente do planeta-objeto da curiosidade humana.
 
Os pontos de interrogação gravados no final do filme são as digitais nítidas do diretor. O filme tem um propósito filosófico, como toda obra de Tarkovski. Ele não pronuncia verbalmente nos diálogos bem construídos, mas nos faz sentir que a ciência não responde por tudo. Em vez de nos maravilharmos com a corrida espacial, somos conduzidos a questionar o sentido da vida na ficção cientifica do diretor russo.
 
E o sugestivo e poético final, em que uma ilha emerge do oceano de Solaris, como materialização do bucólico sítio do pai de Kris Kelvin, deixa em aberto de o psiquiatra que tinha que produzir um relatório sobre o destino da missão, se voltou para casa ou se decidiu se feliz na estreita faixa de terra que a consciência de Solaris lhe deu a partir dos seus neutrinos.

OBRIGADO PELA LEITURA!!!

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sexta-feira, 15 de agosto de 2025

CURTINDO UM CURTA: ESTILHAÇOS

 

A DIFÍCIL ARTE DE DESENTOCAR O COELHO

CURTINDO UM CURTA: ESTILHAÇOS
SÉRIE: CURTINDO UM CURTA
TÍTULO: ESTILHAÇOS
DIREÇÃO: GABRIELA NOGUEIRA
ROTEIRO: GABRIELA NOGUEIRA
ELENCO: MARIANA STUDART, IGOR CONRADO E CAMILA                      FEITOSA.
PRODUTORA: PELE AZUL
EXIBIÇÃO: ITAÚ CULTURAL PLAY



A primeira ideia que o título do curta Estilhaços, da diretora estreante Gabriela Nogueira nos sugere algo fragmentado.
 
Gabriela Nogueira é graduada no curso de Cinema e Audiovisual da Universidade de Fortaleza, atua primariamente na área de direção de arte. Com experiência em curtas como A Mulher da Pele Azul e A Fome que Devora o Coração, Estilhaços é sua primeira produção audiovisual como diretora e roteirista. Realizado durante as incertezas da pandemia de COVID-19, o curta conquistou o prêmio do Júri Popular no Recifest.
 
As imagens entre estilhaços que misturam realidade e fantasia, uma jovem artista plástica é assombrada por um coelho macabro. Sem saber o que é verdade, coragem ou insanidade, ela luta para impedir que seus pesadelos se tornem realidade, são carregadas de símbolos que são nada mais que fragmentos do simbolismo-motor que é a do fim da infância que ainda habita o coração da jovem, impedindo-a de seguir livremente pelos corredores apertados da vida adulta, voltando sempre para sua alcova.
 
O início do filme já nos coloca dentro do ambiente claustrofóbico que nos remete a um pesadelo da moça. Então, o celular desperta. Entendemos que se trata de uma pintora. Mas a tremura toma conta em breve.
 
O som de crianças como se fossem habitantes da sua casinha de bonecas.  Comprimidos jogados no sanitário que são trazidos de volta pelo coelho de garras medonhas. O programa de culinária, seria o da Ana Maria Braga? Invadido pelo coelho-monstro e imagens psicodélicas no programa infantil, e o alerta de que ela que não tem como fugir, são os estilhaços que ferem a alma da personagem principal em que Marina Studart interpreta muito bem. E o vilão da história, o coelho que não quer ser desentocado, interpretado por Igor Conrado, realmente causa terror com pitadas de bom mocinho, apenas deixa a desejar, mas nem tanto a ponto de comprometer sua atuação, na entonação da voz no final do filme. 

Achei a diretora com ares de promissora a partir deste seu primeiro trabalho. Quem venha outros. A direção de arte, que remete ao álbum Dollhouse, de Melanie Martinez, transforma toda sutileza de um quarto infanto-juvenil com material e amostras de arte plástica é um contraste com a narrativa que vai nos envolvendo na angústia da moça que precisa matar o coelho da infância que insiste me ajudá-la a manter sua casinha de bonecas. 

OBRIGADO PELA LEITURA!



VEJA TAMBÉM

A GUERRA DAS FLORES

domingo, 6 de julho de 2025

RESENHA AVULSA: PECADORES:

 

NA ENCRUZILHADA DOS ENCONTROS


TÍTULO: PECADORES

DIREÇÃO: RYAN COOGLER

ROTEIRO: RYAN COOGLER

ELENCO:

MICHAEL B. JORDAN: Elijah e Elias Moore

HAILLE STEINFELD: Mary

MILES CATON: Sammie Caton

JACK O’CONNELL: Remmick

TRILHA SONORA: LUDWIG GORANSSON

PRODURORA: WARNER BROS.

EXIBIÇÃO: HBO MAX

 
A encruzilhada é sempre um encontro de duas, ou mais, estradas ou ruas. Enfim, encontros e sobreposição de caminhos. E a caminhada dos personagens em pecadores se encontram, ou reencontram.
 
Sem dúvida, o diretor Ryan Coogler, de Pantera Negra (2018) e Pantera Negra: Wakanda Para Sempre, consegue sobrepor várias camadas como sedimentos trazidos pelo longo Mississipi para o seu delta, onde florescem algodão e sonhos dos negros em suas amarguras e resistências.
 
Lembra o recente debate que participei pelo Site do André Barcinski sobre o romance O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, em que após a Primeira Grande Guerra, a prosperidade para os brancos do norte mostrada no livro e adaptações não chegaram para os negros do sul, a não ser para os irmãos Fumaça e Fuligem, que, assim como O Grande Gatsby, vai atrás de seu sonho a partir de fortunas conseguidas de maneiras misteriosas/criminosas.
 
Se Gatsby vai atrás da mulher que ele sempre amara, os irmãos negros voltam ao delta para realizar seu sonho de abrir o Juke Joint dos seus sonhos, para seus amigos de longas datas, e seu primo que tinha talento musical e um conflito com seu pai que era pastor.
 
Não achei o terror do filme assim tão terror. No máximo um horror. O vampirismo em meio à opressão do Mississipi é um dos pratos que se completam para quem queria entregar uma refeição completa, como o diretor disse em uma ENTREVISTA. Mas as pitadas de jumpscare no início é que de fato assustam. E não há como negar que o Juke Joint de Fuligem e Fumaça foi inaugurado sobre um terreno encharcado de atrocidades. Fica implícito que a serraria, comprada pelos irmãos, era o local em que a facção local da Ku Klux Klan, em que o ex-dono do local e líder do grupo supremacista, Hogwood, cometia os sacrilégios dos negros, manchando de sangue a terra coberta pela alvura dos algodoais.
Alguns buscaram uma comparação com Um drink no inferno por causa da luta contra vampiros em um bar na beira da estrada. Mas este não tem tantas camadas como Pecadores.
 

É de fato uma encruzilhada de gêneros:

Terror/Vampirismo: Remmick, o vampiro irlandês, uma referência a Bram Stoker, autor de Drácula. Além do vampirismo, a evocação de seres do passado e do futuro pela música de Sammie “Preacher Boy” Moore, e o hoodoo praticado por Annie, que é quem sabia como enfrentar os vampiros.
Ação: A cena final é digna de um Rambo e qualquer outro personagem de ação do cinema. Há uma pequena ação dos índios Choctaw, como caçadores de vampiros.
Uma pitada de faroeste surge quando se atira em plena luz do dia em dois sujeitos que tentavam roubar a carga do caminhão.
Musical: O filme é uma verdadeira ode ao blues. Ele mostra como a música expressa amarguras e serve de resistência para os que vivem sob o sol da opressão. E a atuação de Miles Caton, cantor e compositor de Blues, no papel de Sammie Moore ainda jovem, e Buddy Guy, fazendo o mesmo Sammie já na velhice, faz de Pecadores um musical ancorado no realismo, apesar da linha fantástica que atravessa a obra toda.

TRAILLER


RESENHAS ALEATÓRIAS