sábado, 3 de janeiro de 2026

CINCO SESSÕES: CHANTAL AKERMAN em UMA BATATA ASSANDO NA AGONIA ROTINEIRA

 
UMA BATATA ASSANDO NA AGONIA ROTINEIRA
 
imagem de divulgação

 
TÍTULO: JEANNE DIELMAN, 23, QUAI DU COMMERCE, 1080, BRUXELLAS
PAÍS: BÉLGICA
DIREÇÃO: CHANTAL AKERMAN
ELENCO: DELPHINE SEYRIG, JAN DECORTE, HENRI STORCK
EXIBIÇÃO: FILMICCA
 
Falaremos aqui de um filme que não é necessariamente um entretenimento, é uma obra introspectiva e, no entanto, com profundo valor no nicho cinematográfico.
 
Não é ao acaso que “Jeanne Dielman” está em primeiro lugar na lista de melhor filme de todos os tempos pela revista britânica Sight and Sound. É a primeira vez também que o topo da lista é ocupado por uma diretora, Chantal Akerman. Falecida em 2015.
 
Três dias na vida de uma mulher, interpretada por Delphine Seyrig, que já havia trabalhado com Alain Resnais, Luis Buñuel e Marguerite Duras, quando no alto dos seus quarenta e dois anos de vida foi procurada por uma jovem cineasta com apenas 24 anos e meia dúzia de documentários ainda não relevantes.
 
O filme nasce da atmosfera do cinema experimental nova-iorquino de John Cage e o vanguardismo de Jonas Mekas no som e na imagem e Trisha Brown no movimento do corpo. Mas também traz o aprofundamento da temática dos ambientes claustrofóbicos em que a mulher é enclausurada por uma cultura machista já explorado pela diretoria desde o seu primeiro trabalho, o curta Exploda minha cidade em que a própria diretora atua em uma cozinha com afazeres e movimentos até o desfecho trágico. Segue-se em O quarto, documentário da sua vida em Nova York e Hotel Monterrey, em que somos convidados a visitar um lugar comum/incomum.
 
Filmes posteriores de Chantal Akerman trazem ecos de “Jeanne Dielman” sentidos em A mudança e A prisioneira.
 
Gestos que passariam despercebidos em filmes padronizados ganham existências cinematográfica através da câmera dirigida por Chantal Arkeman. Descascar batatas, banhar-se, arrumar a cama, colocar a mesa, tomar sopa com o filho podem ser simples gestos que em si que não influenciariam na trama da maioria dos filmes. Mas quando isto sangra pouco a pouco por dentro e vai se tornando amargura de uma viúva, que nunca viajou pelas searas dos prazeres carnais, mesmo se prostituindo ocasionalmente para se sustentar, lágrimas se traduzem em gestos e andares ao cumprir sua rotina metodicamente.
 
Considerado o primeiro filme claramente feminista, rodado com uma equipe composta apenas por mulheres, trazendo na fotografia Babette Mangolte e planos longos com câmera fixa no cenário geometricamente explorado. O tempo dilatado dos compactos três dias não se enquadram necessariamente em três atos, mas numa decomposição da vida de Jeanne Dielman que vai acontecendo a partir das pequenas falhas como a batata que queima, do não encontrar um substituto para o botão perdido e outros dissabores aparentemente insignificantes.
 
O assassinato surge no fim do filme como uma tentativa de retomar o controle perdido a partir do descuido do dia anterior que levou à queima das batatas. E uma conversa indesejável com seu filho sobre sexualidade.
 
Depois de 3h22 de filme, você fica pensando como o corpo não se prende a uma rotina com emoções reprimida que força trincas na segurança pessoal.
 
Uma outra leitura possível é que que Jeanne Dielman já tinha esta rotina metódica, uma vez que ela conta para o filho sobre seu casamento em uma tentativa de quebrar o padrão comum para sua época, em que as mulheres bonitas podiam casar com homens afortunados, e assim terem uma vida melhor. Mas para fugir do padrão resolveu casar-se com um comerciante que havia se empobrecido. A rotina a mantinha convicta da sua escolha.
 
Ao perder o marido, ela segue sua rotina e a prostituição era para preencher o vazio deixado pela viuvez. Transferia para seus clientes o papel do seu marido já que a função de “servir” um homem era a mesma.
 
No fim do segundo dia, em uma conversa sobre sexualidade com seu filho adolescente, este relata para ela uma conversa que teve com seu pai, revelando o que o marido dela achava sobre as mulheres. Também isto pode ter levado a Jeanne Dielman a cometer o assassinato do seu cliente no dia seguinte. Era o fim da segurança de ter feito a escolha certa.

sábado, 30 de agosto de 2025

CINCO SESSÕES: SOLARIS de ANDREI TARKOVSKI

 A CONVIDADA QUE SE DESCONVIDA

FILME: SOLARIS
SÉRIE: CINCO SESSÕES
DIREÇÃO: ANDREI TARKOVSKY (URSS)
ROTEIRO: ANDRE TARKOVSKY/FRIDRIKH GORENSHTEIN.
GÊNERO: FANTASIA/ FICÇÃO CIENTÍFICA.
ELENCO: NATALYA BONDARCHUK, DONATAS BANIONIS, ANTALOLIY SOLONITSYN.
BASEADO NO ROMANCE HOMÔNIMO de STANISLAW LEM (POLÔNIA).
EXIBIÇÃO: SESC PLAY


FONTE: BLOGS DA UTOPIA


 
“O sofrimento faz a vida parecer sombria e perigosa”
 
Ao chegar na estação espacial Solaris, o famoso psiquiatra depara com a situação dos três membros restantes da tripulação sobre o oceano senciente que cobre o planeta de mesmo nome, descrito por Henri Berton, mas que o conselho cientifico governamental não deu crédito para os relatos do piloto, mesmo com a palavra de que algo estaria acontecendo e que merecesse ser analisado dada por um físico ilustre.
 
A tripulação estava desnorteada, incluindo um, Dr Gibarian que havia suicidado, Dr, Snaut estava alucinado enquanto Dr. Sartorius se prendia na obstinação de encontrar a fórmula para a eternidade.
 
O filme em certos momentos esbarra no terror psicológico misturado com horror cósmico. Mas é na verdade a tentativa, bem suscedida, de Andrei Tarkovski colocar sentimentos humanos acima da exposição tecnológica que caracterizava os filmes de ficção científica até então. Mas não é um filme anti-2001: Uma odisseia no espaço de 1968, dirigido por Stanley Kubrick. A não ser uma resposta no campo geopolítico no contexto da guerra fria.
 
Solaris apresenta elementos característico do estilo de Tarkovski. O uso da luz natural e enquadramentos que nos coloca como espectadores de lucidez e flertes com a loucura. As imagens do passado em preto e branco com a atualidade em que o enredo se situa em cores nos faz pensar em como o próprio cinema evoluiu cientificamente. A evolução da tecnologia das câmeras está para o cinema assim com a microscopia está para a citologia.
 
O lago no bucólico sítio do pai de Kris Kelvin passa a fazer sentido ao nos conectar com o oceano de Solaris.
 
No retorno para a cidade feita por Henri Berton na dúvida se convenceu ou não Kris Kelvin, o carro que o conduz passa por longos túneis e breves espaços iluminados, revelando a maestria do diretor e sua equipe fotografia do filme. É um tempo longo que poderia nos ter poupado alguns minutos, mas teria nos privados de um exemplo de como fazer cinema com arte e não mero entretenimento.
 
A sonoplastia não chega a ser destaque, mas se faz presente no tom certo e nos planos certos. E apesar de planos longos, mas inteligentes como já mencionado no retorno de Henri Berton para a urbe, as camadas que podemos explorar ao longo do filme compensa.
 
Chama atenção no filme a atuação de Natalja Sergejewna Bondartschuk, sobre no papel de “convidada”, como era chamado por Dr. Sartorius, as pessoas materializadas a partir dos neutrinos vindo do oceano do planeta pesquisado. A atriz consegue passar muito bem a falta de sentimento em Hari “ressuscitada” que vai entendendo os sentimentos humanos ao conviver com seu marido do passado. Ela traz em seu braço o sinal na pele onde a Hari, em vida, injetou a substância que usou para suicidar. Hari também não se reconhece, sobretudo, quando se vê no espelho. E por mais que Kelvin queira acreditar, Hari tenta convencê-lo que ela não é a sua esposa, é outra coisa.
 
Então Hari, diante da insensatez dos humanos ali, e mesmo sem sentimentos, vê que sua materialização traz sofrimento de Kris Kelvin, seu esposo do passado, que o mergulha cada vez mais no lagamar da insanidade. A personagem se “desconvida” da materialização. E a consciência que os cientistas na Estação Espacial acreditam existir, e que provavelmente digeriu no passado o astronauta Fechner, passou a entender o ser humano a partir de encefalogramas enviados em forma de raio para a sensciência envolvente do planeta-objeto da curiosidade humana.
 
Os pontos de interrogação gravados no final do filme são as digitais nítidas do diretor. O filme tem um propósito filosófico, como toda obra de Tarkovski. Ele não pronuncia verbalmente nos diálogos bem construídos, mas nos faz sentir que a ciência não responde por tudo. Em vez de nos maravilharmos com a corrida espacial, somos conduzidos a questionar o sentido da vida na ficção cientifica do diretor russo.
 
E o sugestivo e poético final, em que uma ilha emerge do oceano de Solaris, como materialização do bucólico sítio do pai de Kris Kelvin, deixa em aberto de o psiquiatra que tinha que produzir um relatório sobre o destino da missão, se voltou para casa ou se decidiu se feliz na estreita faixa de terra que a consciência de Solaris lhe deu a partir dos seus neutrinos.

OBRIGADO PELA LEITURA!!!

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sexta-feira, 15 de agosto de 2025

CURTINDO UM CURTA: ESTILHAÇOS

 

A DIFÍCIL ARTE DE DESENTOCAR O COELHO

CURTINDO UM CURTA: ESTILHAÇOS
SÉRIE: CURTINDO UM CURTA
TÍTULO: ESTILHAÇOS
DIREÇÃO: GABRIELA NOGUEIRA
ROTEIRO: GABRIELA NOGUEIRA
ELENCO: MARIANA STUDART, IGOR CONRADO E CAMILA                      FEITOSA.
PRODUTORA: PELE AZUL
EXIBIÇÃO: ITAÚ CULTURAL PLAY



A primeira ideia que o título do curta Estilhaços, da diretora estreante Gabriela Nogueira nos sugere algo fragmentado.
 
Gabriela Nogueira é graduada no curso de Cinema e Audiovisual da Universidade de Fortaleza, atua primariamente na área de direção de arte. Com experiência em curtas como A Mulher da Pele Azul e A Fome que Devora o Coração, Estilhaços é sua primeira produção audiovisual como diretora e roteirista. Realizado durante as incertezas da pandemia de COVID-19, o curta conquistou o prêmio do Júri Popular no Recifest.
 
As imagens entre estilhaços que misturam realidade e fantasia, uma jovem artista plástica é assombrada por um coelho macabro. Sem saber o que é verdade, coragem ou insanidade, ela luta para impedir que seus pesadelos se tornem realidade, são carregadas de símbolos que são nada mais que fragmentos do simbolismo-motor que é a do fim da infância que ainda habita o coração da jovem, impedindo-a de seguir livremente pelos corredores apertados da vida adulta, voltando sempre para sua alcova.
 
O início do filme já nos coloca dentro do ambiente claustrofóbico que nos remete a um pesadelo da moça. Então, o celular desperta. Entendemos que se trata de uma pintora. Mas a tremura toma conta em breve.
 
O som de crianças como se fossem habitantes da sua casinha de bonecas.  Comprimidos jogados no sanitário que são trazidos de volta pelo coelho de garras medonhas. O programa de culinária, seria o da Ana Maria Braga? Invadido pelo coelho-monstro e imagens psicodélicas no programa infantil, e o alerta de que ela que não tem como fugir, são os estilhaços que ferem a alma da personagem principal em que Marina Studart interpreta muito bem. E o vilão da história, o coelho que não quer ser desentocado, interpretado por Igor Conrado, realmente causa terror com pitadas de bom mocinho, apenas deixa a desejar, mas nem tanto a ponto de comprometer sua atuação, na entonação da voz no final do filme. 

Achei a diretora com ares de promissora a partir deste seu primeiro trabalho. Quem venha outros. A direção de arte, que remete ao álbum Dollhouse, de Melanie Martinez, transforma toda sutileza de um quarto infanto-juvenil com material e amostras de arte plástica é um contraste com a narrativa que vai nos envolvendo na angústia da moça que precisa matar o coelho da infância que insiste me ajudá-la a manter sua casinha de bonecas. 

OBRIGADO PELA LEITURA!



VEJA TAMBÉM

A GUERRA DAS FLORES

domingo, 6 de julho de 2025

RESENHA AVULSA: PECADORES:

 

NA ENCRUZILHADA DOS ENCONTROS


TÍTULO: PECADORES

DIREÇÃO: RYAN COOGLER

ROTEIRO: RYAN COOGLER

ELENCO:

MICHAEL B. JORDAN: Elijah e Elias Moore

HAILLE STEINFELD: Mary

MILES CATON: Sammie Caton

JACK O’CONNELL: Remmick

TRILHA SONORA: LUDWIG GORANSSON

PRODURORA: WARNER BROS.

EXIBIÇÃO: HBO MAX

 
A encruzilhada é sempre um encontro de duas, ou mais, estradas ou ruas. Enfim, encontros e sobreposição de caminhos. E a caminhada dos personagens em pecadores se encontram, ou reencontram.
 
Sem dúvida, o diretor Ryan Coogler, de Pantera Negra (2018) e Pantera Negra: Wakanda Para Sempre, consegue sobrepor várias camadas como sedimentos trazidos pelo longo Mississipi para o seu delta, onde florescem algodão e sonhos dos negros em suas amarguras e resistências.
 
Lembra o recente debate que participei pelo Site do André Barcinski sobre o romance O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, em que após a Primeira Grande Guerra, a prosperidade para os brancos do norte mostrada no livro e adaptações não chegaram para os negros do sul, a não ser para os irmãos Fumaça e Fuligem, que, assim como O Grande Gatsby, vai atrás de seu sonho a partir de fortunas conseguidas de maneiras misteriosas/criminosas.
 
Se Gatsby vai atrás da mulher que ele sempre amara, os irmãos negros voltam ao delta para realizar seu sonho de abrir o Juke Joint dos seus sonhos, para seus amigos de longas datas, e seu primo que tinha talento musical e um conflito com seu pai que era pastor.
 
Não achei o terror do filme assim tão terror. No máximo um horror. O vampirismo em meio à opressão do Mississipi é um dos pratos que se completam para quem queria entregar uma refeição completa, como o diretor disse em uma ENTREVISTA. Mas as pitadas de jumpscare no início é que de fato assustam. E não há como negar que o Juke Joint de Fuligem e Fumaça foi inaugurado sobre um terreno encharcado de atrocidades. Fica implícito que a serraria, comprada pelos irmãos, era o local em que a facção local da Ku Klux Klan, em que o ex-dono do local e líder do grupo supremacista, Hogwood, cometia os sacrilégios dos negros, manchando de sangue a terra coberta pela alvura dos algodoais.
Alguns buscaram uma comparação com Um drink no inferno por causa da luta contra vampiros em um bar na beira da estrada. Mas este não tem tantas camadas como Pecadores.
 

É de fato uma encruzilhada de gêneros:

Terror/Vampirismo: Remmick, o vampiro irlandês, uma referência a Bram Stoker, autor de Drácula. Além do vampirismo, a evocação de seres do passado e do futuro pela música de Sammie “Preacher Boy” Moore, e o hoodoo praticado por Annie, que é quem sabia como enfrentar os vampiros.
Ação: A cena final é digna de um Rambo e qualquer outro personagem de ação do cinema. Há uma pequena ação dos índios Choctaw, como caçadores de vampiros.
Uma pitada de faroeste surge quando se atira em plena luz do dia em dois sujeitos que tentavam roubar a carga do caminhão.
Musical: O filme é uma verdadeira ode ao blues. Ele mostra como a música expressa amarguras e serve de resistência para os que vivem sob o sol da opressão. E a atuação de Miles Caton, cantor e compositor de Blues, no papel de Sammie Moore ainda jovem, e Buddy Guy, fazendo o mesmo Sammie já na velhice, faz de Pecadores um musical ancorado no realismo, apesar da linha fantástica que atravessa a obra toda.

TRAILLER


RESENHAS ALEATÓRIAS





quinta-feira, 29 de agosto de 2024

CURTINDO UM CURTA: A GUERRA DAS FLORES

 EXPRESSIONISMO E EXPECTORAÇÕES

IMAGEM: Capturada durante a exibição

SÉRIE: CURTINDO UM CURTA

DIREÇÃO: LUIS VILLAVERDE E MOIRA SOARES

ELENCO: RAFAEL LOZANO, MARCÉLIA CARTAXO, GUILHERME RODIO.

EXIBIÇÃO: ITAÚ CULTURAL PLAY

Durante o carnaval de 1924, em Niterói, três rapazes embriagados chegam a um bordel na periferia da cidade. Enquanto esperam o atendimento de uma cafetina, brincam, conversam e discutem, num tenso e desgovernado convívio. Enquanto isso, um deles reflete sobre a vida e a infância.
 
Durante o carnaval de 1924, em Niterói, três rapazes embriagados chegam a um bordel na periferia da cidade. Enquanto esperam o atendimento de uma cafetina, brincam, conversam e discutem, num tenso e desgovernado convívio. Enquanto isso, um deles reflete sobre a vida e a infância.
 
O filme participa do 35º KINOFORUM – FESTIVAL INTERNACINAL DE CURTAS DE SÃO PAULO, estando sua exibição disponível no Itaú Cultural Play e PORTACURTAS.
 
Trata-se de uma adaptação do quadrinista Marcello Quintanilha, sob a direção de Luis Villaverde e Moira Soares, é adaptado no ano de 1924, portanto, há cem anos. Nos quadrinhos é uma historieta de apenas quatro páginas em Hinário Brasileiro, o que faz a menção ao Hino Nacional fazer sentido quando
Por se tratar de carnaval em Niterói me faz pensar que são personagens periféricos como periférico parece ser o carnaval em Niterói.  
 
Não dá para deixar de falar sobre a relação do filme com o expressionismo alemão no que se diz respeito à iluminação, sobretudo na parte final do curta. A adaptação da história em 1924 ajuda nesta associação. O próprio autor fala da sua referência em uma entrevista concedida ao site da Livraria Trabalhar Cansa.
 
O protagonista é um rapaz atormentado por traumas da infância, lembranças tóxicas, ter sentado no colo de um outro menino na escola.
 
Outras temáticas também são tratadas na história com a relação nada erótica entre cliente e prostituta.
 
Vale a pena conferir este curta metragem recheado de signos.

Obrigado pela leitura!!!

CONFIRA:

domingo, 13 de fevereiro de 2022

RESENHAS ALEATÓRIAS: ATAQUE DOS CÃES


UM PRATO FRIO NO CARDÁPIO


FILME: ATAQUE DOS CÃES
TÍTULO ORIGINAL: THE POWER OF THE DOG
DIREÇÃO: JANE CAMPION
ELENCO: BENEDICT CUMBERBATCH, KIRSTEN DUNST, JESSE PLEMONS
GÊNERO: DRAMA/ FAROESTE/ ROMANCE
ANO: 2021


 

Empatia logo pelo filme por causa da temática principal que se revela apenas no final. Diante da montanha que sugere um cão de boca aberta, preste a atacar, lembro-me de que este ano estarei pesquisando aqui em Mutum sobre um filme amador feito por conterrâneos denominado Vingança na Montanha. E vingança é a temática do meu primeiro conto enviado para uma antologia em 2016, vindo a fazer parte da obra Vendetta, editora Andross.
 
O filme de Jane Campion, diretora neozelandesa que volta a nos brindar com este trabalho, uma revisitação aos clássicos de western, consegue dizer muito com seus enquadramentos e silêncios das cenas, tendo como pano de fundo a vida rural de Montana. As paisagens são encantadoras. Lançado pela Netflix.
 
Os irmãos Burbank estão em sintonia apesar da brutal divergência de comportamento. Phil Burbank (Benedict Cumberbatch) é rude, contrastando com George Burbank (Jesse Plemons) e sua fineza que quase não faz sentido na cultura ruralesca, distorcendo da visão que temos de um Estados Unidos profundo dos anos 1925.
 
O filme faz cortes abruptos sem comprometer o entendimento. As divisão em capítulos nos coloca bem próximo do livro homônimo (The Power of the Dog) de Thomas Savage, nos apresenta três cenas que passam desapercebidas para a maioria das retinas, mas que dão sentido ao final: No Saloon que funciona agora como restaurante em que Phil, apesar de falastrão, não aparece flertando com as mulheres à disposição, o fato dos dois irmãos dormirem na mesma cama e a morte de uma vaca por antraz. Por ser baseado em uma obra literária de 1967, quem sabe aparece na série A.DA.PT.AÇÃO?
 
A mudança de perspectiva de um final vai mudando ao longo da exibição. A princípio dá a entender que a rejeição de Phil com a chegada de Rose (Kirsten Dunst) após casar-se secretamente com seu irmão, é no fundo o desejo de tê-la para si. Depois, com a visibilidade de ódio nas expressões da novata e perdida no casarão no meio das montanhas, e seu afogamento no alcoolismo, pode ser que tudo acabe em um assassinato praticado por um dos três, Phil, George ou Rose.
 


A chegada de Peter (Kodi Smit-McPhee) por causa das suas férias, filho de Rose que já era maltratado por Phil no início quando os peões vão jantar no saloon (restaurante) de Rose e Peter era o garçom. Para aplacar sua ira diante do bulling violento de Phil diante do seu jeito homoafetivo, ele aparece dançando com um bambolê. Mas há uma reviravolta quando Phil começa a lhe tratar bem e propõe trançar para ele uma corda de couro antes que se volte para seus estudos de medicina, buscando seguir na profissão do seu pai suicida. Ao vir à tona uma paixão de Phil por um amigo do passado, nos leva para uma perspectiva de um final feliz entre Phil e Peter. Mas aí é que Peter se aproveita desde Calcanhar de Aquiles de Phil e pratica a vingança, um prato que se serve frio, derrubando nossas perspectivas.
 
Entendemos que o filme é uma crítica ao machismo que impera ainda hoje, não só no profundo dos países como Estados Unidos, Brasil ou qualquer outro, mas na dissimulação da quase insustentável leveza da sexualidade.
 
Indicado ao Oscar em 12 categorias, sendo sua diretora, Jane Campion, a primeira mulher com duas indicações na carreira. Veremos em 27 de março se Ataque dos Cães leva boa parte das suas indicações. Podendo duas estatuetas irem para a mesma casa caso Jesse Plemons e Kirsten Dunst vençam como ator e atriz coadjuvantes. Eles são casados.
 
Houve um questionamento sobre o título do livro. Inclusive um dos maiores jornalistas culturais colocou a questão do título no Brasil ser Ataque dos Cães e não O Poder dos Cães, como é o título original tanto do filme quanto do livro de Thomas Savage. Pode ser uma questão de tradução. No final do filme, o personagem Peter aparece em seu quarto com a corda trançada na mão. Uma vez que sua mãe deu todo o coro para os índios, Peter oferece a Phil couro cru. No entanto este couro para que Phil termine a corda foi tirada da vaca morta por antraz. O único senão é que pelo suposto tempo a vaca já deveria estar em um estado mais avançado de decomposição. Em seguida ao ver sua mãe feliz com George, voltando do sepultamento de Phil, ele recita o versículo 20 do Salmo 22, que em cada tradução aparece de um jeito. Veja as diferentes traduções:
A que aparece na crítica de PAPO DE CINEMA:
Salmos, 20:22: 
"Livrai a minha alma da espada, 
e o meu ser, do ataque dos cães”
 
No BIBLEGATEWAY:
Salmos 22, 20: 
“Livra a minha alma das armas de morte;
poupa a minha preciosa vida da maldade desses cães.”

 
Bíblia Sagrada: Editora Ave-Maria
Salmo 21, 21: 
“Livrai da espada a minha alma,
E das garras dos cães a minha vida.”

 
Bíblia Sagrada: Edição Pastoral, Editora Paulus
Salmos 22, 21: 
“Salva meu pescoço da espada,
E a minha pessoa, das patas do cão!”

Então, pode ser uma questão de tradução apenas.


TRAILER



RESENHAS ALEATÓRIAS


segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

RESENHAS ALEATÓRIAS: TICK, TICK.. BOOM!

 

O RESGATE DO ENCANTO

 


FILME: TICK, TICK... BOOM!

DIREÇÃO: LIN-MANUEL MIRANDA

ELENCO: ANDREW GARFIELD, ALEXANDRA SHIPP, ROBIN DE JESÚS

GÊNERO: DRAMA, MUSICAL

EXIBIÇÃO: NETFLIX

 

Confesso que La La Land: Cantando As Estações não me encantou. Sei que não sou bom com os musicais. Gosto de música, mas artisticamente meus ouvidos não são tão aguçados. 

Mas Tick, Tick... Boom! é aquele tapa na cara de quem anda desencantado com musicais. É como um agrupamento policial que te resgata da desesperança de um cativeiro.

O filme nos coloca dentro do universo árido da arte. Jonathan Larson é a síntese de tantos que ainda estão como insetos em volta da lâmpada chamada sucesso. Batalhar em sua obra enquanto se precisa de um emprego e conviver com a incompreensão, com a necessidade de outras pessoas como a namorada e ainda ter seu melhor amigo mudando de vida por causa de um emprego fora da arte, faz com que todo artista em desenvolvimento sinta-se projetado no personagem desta cinebiografia.

Foto de Jonathan Larson, biografado do filme.

Um escritor tem em suas gavetas, ou “nuvens”, os melhores escritos da sua vida, o compositor a melhor música, o roteirista o próximo ganhador do Oscar e nada acontece quando o relógio toca e ele precisa ir para o trabalho enfadonho de sempre. Mas é preciso persistência. A agente de Larson, Rosa Stevens, interpretada por Judith Light, pareceu-me a princípio um obstáculo na carreira do Jovem artista, mas depois da apresentação para os produtores. O seu musical superbia não interessou para a Broadway, ela, perdão pelo trocadilho, lança luzes sobre a carreira do garçon de uma lanchonete. É como se dissesse que o hambúrguer não ficou bom, faça outro, outro e mais outro, até acertar. Então vamos saborear o melhor que você pode fazer.

 

— O que devo fazer agora?

—Comece a escrever o próximo. E quando você terminar, comece o seguinte. E assim por diante.


E assim tivemos os próximos. O primeiro que foi o musical que deu nome ao filme. E Rent veio como o musical dos musicais de Larson. Infelizmente ele não viu seu sucesso. O Boom aconteceu para ele, fisicamente, aos 35 anos de idade. O nosso biografado tinha Síndrome de Marfan, que deixa o organismo com falta de fibrilina. Pensaram que era estresse, só na autopsia que revelou a verdadeira causa da sua morte.

Superbia, o musical que levou oito anos para ser escrito, foi inspirada nas obras de Orson Welles. A gente precisa começar com algo, assim como estou começando a Coleção de resenhas de cinema ANGULAR DO INTERIOR com essas notas sobre o musical que me encantou há duas semanas.

O ator Andrew Garfield interpretou toda a dedicação e apreensão de Jonathan Larson na sua curta trajetória. Ele também interpretou o brasileiro Eduardo Saverin no filme que retrata o início das redes sociais.

Outro fato preponderante no filme é o drama dos jovens soropositivos no início dos anos 90. Época que perdemos Cazuza, Renato Russo e Freddie Mercury, entre outros. Na véspera da sua apresentação para produtores, Larson se sente na obrigação de visitar um amigo no hospital. Depois de melhor amigo, com quem dividiu apartamento por um bom tempo, Michel também contraiu HIV e está com os dias contados. A metáfora da bomba relógio agora vale muito mais para ele que para Larson.

Mas vida de todo artista termina quando depara com a impossibilidade de continuar produzindo. Assim é que morre seus sonhos, seus projetos e tudo que produziu, mas não foi revelado. Todo mundo envolvido no mundo das artes deveria assistir o filme.


RESENHAS ALEATÓRIAS

PECADORES

ATAQUE DOS CÃES